Morreu o Papa, começam as polémicas no Vaticano: cardeal italiano destituído por Francisco quer participar no Conclave. No Vaticano, enquanto os fiéis prestam uma última homenagem a Francisco, surgem as primeiras controvérsias no processo de sucessão do Papa.

Uma mulher foi convocada por engano para as congregações gerais dos cardeais, onde só podem participar homens?

Quem é Geneviève Jeanningros?

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Créditos, vaticano.

A freira que quebrou o protocolo do Vaticano para se despedir do Papa Francisco. Uma freira chamou à atenção por quebrar o protocolo do Vaticano ao se aproximar do caixão do Papa Francisco durante o velório na Basílica de São Pedro. Ao contrário de outras pessoas que por ali passaram, a mulher permaneceu vários minutos junto ao corpo do Santo Padre, de quem se despediu pela última vez.

A este caso, junta-se o de um cardeal italiano, que foi destituído por Francisco após ser condenado por fraude fiscal. Ângelo Becciu apareceu agora no Vaticano e insiste em participar no Conclave. O Colégio de Cardeais, composto por religiosos que conduzem a Igreja Católica e votam, dentre eles mesmos, no próximo papa, tem entre seus membros acusados por abuso sexual ou negligência durante investigações de casos deste tipo.

Cardeais “traidores”

O Papa Francisco provocou a ira de alguns cardeais, que seriam em tese os seus colaboradores mais próximos, mas também dos que ocupam os postos mais importantes depois de si na hierarquia eclesiástica. Em 2017, o jesuíta argentino aproveitou a mensagem de felicitação de Natal à Cúria para repreender, sem citar nomes, os “traidores” que prejudicavam a sua reforma das instituições.

Giovanni Angelo Becciu renunciou aos direitos ligados ao cardinalato em 2020, após ser alvo de um escândalo de corrupção. Lista do Vaticano afirma que o cardeal não é eleitor. Giovanni Angelo Becciu, condenado à prisão por envolvimento num escândalo de corrupção no Vaticano, afirmou que irá participar no Conclave na Santa Sé mesmo tendo sido excluído da lista de eleitores. As declarações foram feitas ao jornal italiano “L’Unione Sarda”, nesta terça-feira. Becciu renunciou aos direitos ligados ao cardinalato em 2020, após ser alvo de uma investigação que apurou irregularidades na compra de um imóvel de luxo em Londres. Na ocasião, o Vaticano anunciou que o papa Francisco havia aceitado a renúncia.

Segundo as investigações, em 2014, o Vaticano gastou mais de US$ 200 milhões na aquisição do imóvel. De acordo com a BBC, parte do dinheiro utilizado deveria ter sido destinada a obras de caridade. O acordo foi assinado por Becciu, que na época atuava como chefe de gabinete do papa. Além disso, o religioso também teria desviado recursos para a diocese de sua cidade natal, na Sardenha, beneficiando membros da própria família.

Em dezembro de 2023, Becciu foi condenado a cinco anos e seis meses de prisão, além da inabilitação perpétua para cargos públicos, por peculato e abuso de poder. A decisão foi proferida pelo Tribunal do Vaticano. O religioso recorreu da decisão e continua em liberdade. Ao “L’Unione Sarda”, Becciu afirmou que já viajou a Roma e participará do Conclave para eleger o sucessor de Francisco. Segundo ele, seus direitos continuam válidos, já que foi convidado a participar de um Consistório sobre reformas no Vaticano em 2022, mesmo após ter renunciado.

O papa Francisco reconheceu que minhas prerrogativas de cardeal permanecem intactas, já que não houve uma vontade explícita de me excluir do Conclave nem um pedido para minha renúncia explícita por escrito”, disse.

Em 2022, o Vaticano confirmou que Becciu foi convidado por Francisco para participar do Consistório, mas esclareceu que os “direitos do cardinalato não se referem à participação na vida da Igreja”.

Becciu também afirmou que a lista divulgada pelo Vaticano com os nomes dos cardeais aptos a participar do Conclave não tem valor legal e deveria ser desconsiderada. Na lista divulgada, Becciu ainda aparece como um dos integrantes do Colégio de Cardeais, grupo formado por 252 religiosos de todo o mundo que ajudam na organização do Conclave e tomam decisões pela Igreja enquanto um novo papa não é eleito.

No entanto, a relação indica que Becciu não está entre os 135 cardeais com direito a voto no Conclave. Sendo assim, ele poderia participar da preparação da eleição, mas ficaria de fora da votação. Becciu já foi considerado uma figura influente no Vaticano. Como conselheiro de Francisco, chegou a ser apontado como um possível sucessor. Em 2018, foi nomeado cardeal pelo próprio papa, mas perdeu espaço na Igreja após o escândalo vir à tona. O religioso sempre negou as acusações e chegou a afirmar que Francisco havia perdido a fé nele.

“Foi também uma dor imensa ver o papa mudar de repente a sua opinião sobre mim de forma tão radical. Uma dor que aceitei como um teste à minha fé”, afirmou ao “L’Unione Sarda”.

Em janeiro de 2023, depois da morte do polémico cardeal australiano George Pell, um jornalista italiano revelou que este tinha escrito uma nota anónima que atacava o Papa. Pell, que foi um conselheiro próximo de Francisco, destacou no texto o pontificado “desastroso em vários aspetos” e apontou o que considerava “graves fracassos” na diplomacia, enfraquecida pela guerra na Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022. Alguns meses depois, cinco cardeais conservadores expressaram publicamente as suas “dúvidas” quanto ao Papa, uma vez que temiam uma mudança de doutrina sobre a homossexualidade ou a ordenação das mulheres.

Expulsões no Vaticano

Em novembro de 2023, o Papa destituiu o bispo americano Joseph Strickland, numa decisão rara. Conservador, e um dos inimigos mais ferrenhos de Francisco, tinha criticado anteriormente a postura branda do Papa no que diz respeito ao aborto, aos homossexuais e aos divorciados. Em julho de 2024, o bispo ultraconservador italiano Carlo Maria Vigano, de 83 anos, conhecido pelas suas críticas severas ao pontificado, foi excomungado por rejeitar a autoridade do chefe da Igreja Católica. O embaixador da Santa Sé nos Estados Unidos, pró-Trump e negacionista, tinha acusado Francisco de “heresia” e de comportamento “tirano”.

Fiducia supplicans

Em dezembro de 2023, o Vaticano publicou um documento chamado “Fiducia supplicans” (“Confiança suplicante”), que abriu o caminho para a bênção de casais do mesmo sexo, o que provocou indignação no mundo conservador, em particular na África e nos Estados Unidos.

A onda de críticas obrigou o Vaticano a “esclarecer” a sua posição e a defender-se de qualquer erro doutrinal, apesar de ter reconhecido que a reforma seria “imprudente” em certos países onde a homossexualidade é proibida.

Jean-Pierre Bernard Ricard

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Ele prometeu retirar-se do ministério público.

Arcebispo Emérito de Bordeaux, na França, não é mais um cardeal eleitor por ter mais de 80 anos. Tecnicamente, no entanto, ainda poderia ser eleito Papa. O próprio religioso confessou, em novembro de 2022, ter abusado de uma garota de 14 anos. “35 anos atrás, quando eu era pároco, comportei-me de uma maneira repreensível com uma garota jovem de 14 anos. Meu comportamento levou inevitavelmente a graves e duradouras consequências para esta pessoa”, admitiu em comunicado.

Desde então, ele renunciou às suas funções públicas e afirmou que conversou com sua vítima a respeito do abuso. “Eu renovo aqui meu pedido de perdão e também peço à família inteira dela por perdão”, disse Rihard.

Vincent Nichols

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Nichols, agora cardeal e clérigo católico sénior em Inglaterra e no País de Gales.

O Arcebispo de Westminster, na Inglaterra, é cardeal eleitor até novembro de 2025, quando completa 80 anos. Além disso, ele também pode se escolhido papa.

Nichols admitiu em 2019 que “falhou” com uma mulher que relatou um abuso em sua arquidiocese. Ela teria denunciado que foi abusada por um membro da Ordem dos Servitas e ele não respondeu aos emails dela.

O arcebispo confessou que seu comportamento efetivamente “calou” a vítima, segundo a agência de notícias católica CNA. A mulher não buscava compensação financeira, segundo o processo, mas queria que sua queixa fosse reconhecida pela arquidiocese.

Juan Luis Cipriani Thorne

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A crise na PUCP e outras situações explosivas, entre elas sua proximidade com o Sodalício de Vida Cristã (cujo fundador, Luis Fernando Figari, cometeu abusos de todo tipo), desgastaram a imagem pública do cardeal.

Arcebispo Emérito de Lima, no Peru, Cipriani não é mais um cardeal eleitor, mas segue no colégio. Membro da Opus Dei, organização da Igreja composta por leigos e religiosos dedicados à evangelização, foi acusado de abuso sexual na década de 1980 e de ter sido omisso em relação a denúncias contra outros religiosos de sua diocese. Em carta escrita ao jornal El País, ele chamou as acusações de “totalmente falsas”.

Cipriani renunciou às suas funções em 2019, um mês depois de ter atingido a idade mínima para a “aposentadoria” de bispos. Isso ocorreu após ele ter recebido uma série de sanções da Congregação da Doutrina da Fé, órgão do Vaticano que processa os casos de abuso sexual dentro da Igreja. Estas sanções limitavam o seu ministério religioso. Além disso, a Igreja pediu que ele tivesse residência fixa fora do Peru.

O cardeal hoje vive entre Madrid e Roma e declarou à publicação que manteve até agora o silêncio pedido pelo Vaticano, mas garantiu não ser culpado. Nos últimos anos, o Papa Francisco dissolveu o movimento Sodalitium Christianae Vitae, envolvido em diversos escândalos de abuso no Peru na época em que Cipriani comandava a Igreja no país. Segundo o arcebispo, o Francisco permitiu em 2020 que ele retomasse pregações em retiros espirituais e administrasse sacramentos.

Philippe Barbarin

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Em 17 de fevereiro de 2016, o cardeal Barbarin foi acusado de não denunciar aos tribunais fatos de pedofilia cometidos por Bernard Preynat, um dos padres da diocese de Lyon, contra François Devaux, Bertrand Virieux e Pierre-Emmanuel Germain-Thill.

O Arcebispo Emérito de Lyon, na França, segue como cardeal eleitor até 2030. Em 2019, ele chegou a ser condenado pela Justiça da França a seis meses de prisão por omissão diante dos abusos sexuais contra menores de 15 anos de idade por parte do padre Bernard Preynat.

As vítimas denunciaram não só o padre, mas o arcebispo à Justiça em 2015 por ter conhecimento dos casos desde, pelo menos, 2010. Barbarin afirmou que só tomou conhecimento em 2014, após conversar com uma vítima.

O processo ainda cabia recurso, mas Barbarin resolveu renunciar de sua posição na Igreja, mas o papa Francisco não aceitou. O pontífice alegou a presunção de inocência, já que os trâmites civis ainda não tinham acabado.

Em janeiro de 2020, Barbarin foi absolvido durante o recurso. Dois meses depois, ele voltou a fazer o pedido de renúncia à Santa Sé e Francisco aceitou.

Rainer Maria Woelki

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Comitê Central dos Católicos Alemães exigiu em 20 de outubro de 2020 a divulgação do relatório. O conselho de pessoas afetadas concordou em não tornar o relatório público, mas posteriormente alegou que eles haviam sido mal informados e que foram pressionados.[6] Em 2011, uma vítima de abuso infantil recebeu um grande acordo com base na provável gravidade do caso. Mas Woelki decidiu em 2015 não notificar Roma deste caso por causa da “má saúde do padre” envolvido e porque a “vítima se recusou a prestar testemunho”.

O Arcebispo de Colónia, na Alemanha, é cardeal eleitor até 2036, quando chega aos 80 anos. Ele foi investigado pela polícia alemã nos últimos anos sob suspeita de ter mentido sobre se tinha ou não conhecimento dos casos de abuso sexual por parte do clero que aconteciam em sua diocese. Às autoridades, ele garantiu que só soube em 2022, de acordo com o jornal britânico The Guardian. Revisão de casos ocorridos 1975 e 2018, encomendada pelo próprio arcebispo, concluiu que mais de 200 abusos sexuais de crianças aconteceram em Colônia. Foram mais de 300 vítimas, a maioria menor de 14 anos. No entanto, Woelki se recusou a divulgar ao público o relatório em 2020, citando problemas com sua metodologia.

Policiais realizaram busca em quatro propriedades da Igreja ligadas à arquidiocese em busca de documentos e emails ligados aos casos em 2023. Woelki já havia pedido sua renúncia a Francisco duas vezes até ali, uma em 2021 e outra em 2022, ambas negadas. Ele segue hoje à frente da Arquidiocese.

Timothy Michaël Dolan

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O seu comportamento em relação aos casos de abuso sexual na Igreja foi alvo de muitas críticas.

Arcebispo de Nova York, nos EUA, Dolan é cardeal eleitor até 2030. Em 2017, a rede de TV americana ABC obteve uma transcrição de uma teleconferência confidencial em que Kenneth Feinberg, advogado apontado pelo arcebispo para administrar o programa independente de reconciliação e compensação das vítimas de casos de abuso da diocese, afirmou que o religioso estava “preocupado” com a aprovação do Ato de Vítimas Infantis.

A legislação proposta tornaria possível pedir indenizações em casos de abuso sexual infantil, mesmo depois que os casos prescreveram criminalmente. Isto é, quando seus responsáveis não podem ser mais presos pelo crime. Este tipo de recurso poderia levar à falência diversas dioceses no estado de NY. As afirmações de Feinberg colocaram em xeque se o cardeal tinha mesmo o intuito de fazer reparações às vítimas.

Em 2007, quando era Arcebispo de Milwaukee, Dolan já havia movido US$ 57 milhões dos cofres da Igreja para um fundo fiduciário de um cemitério, com o intuito de proteger o dinheiro das indenizações devidas às vítimas de abuso sexual. Ele descreveu sua intenção em carta ao Vaticano na época, segundo o jornal The New York Times.

O americano Chris O’Leary acusa o padre LeRoy Valentine de tê-lo estuprado entre o fim dos anos 70 e início dos anos 80 — e de Dolan ter presenciado, ao menos em parte, os abusos. Na carta, publicada pela SNAP (Rede de Sobreviventes de Abusados por Padres, em inglês), em 2021, ele narra uma série de tentativas de levar o processo legal adiante, mas que teriam sido ignoradas por políticos e autoridades judiciais.

Em novembro de 2024, Dolan escreveu uma carta aos fiéis em que anunciou a demissão de 18 funcionários da arquidiocese. Os cortes de gastos teriam o intuito de pagar reparações às vítimas de abuso sexual, segundo o The New York Post. No mês anterior, ele anunciou que a arquidiocese estava processando sua seguradora para obrigá-la a cobrir os gastos de indenizações que estavam saindo dos bolsos da Igreja.

Francisco Javier Errázuriz Ossa

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É muito criticado por sua postura nos casos de abusos sexuais cometidos por sacerdotes na Igreja do Chile. Em 28 de março de 2019, foi considerado réu em uma ação indenizatória por conta dos casos envolvendo os padres Tito Rivera, Óscar Muñoz e Jorge Laplagne, além do ex-padre Fernando Karadima.

Arcebispo Emérito de Santiago, no Chile, Errázuriz não é mais cardeal eleitor, mas segue no colégio. Em 2019, ele foi réu em uma ação que o acusava de acobertar pelo menos 10 casos de abuso sexual infantil realizados por padres na década de 1990.

Em dezembro de 2018, o papa Francisco já havia removido o cardeal de seu grupo de conselheiros. No entanto, a razão alegada pela Santa Sé teria sido a idade avançada de alguns membros do grupo. Outro cardeal acusado de abuso, George Pell (já falecido), também foi removido junto com Errázuriz.

Apesar de oficialmente ser membro do corpo de cardeais, é improvável que a imagem de Errázuriz possa se reabilitar. Atualmente, ele tem 92 anos, o que também limita sua ação na Igreja.

Lista dos Doze

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Cardeal Daniel DiNardo.

Ao longo dos anos, a SNAP já divulgou listas de religiosos da alta cúpula da Igreja, especialmente perto do conclave que elegeu Francisco. A organização, cuja legitimidade já foi questionada e a atuação criticada por religiosos como Dolan, tinha o intuito de expor nomes e evitar uma possível ascensão dos mais coniventes com abusos ao posto de Sumo Pontífice. Entre os nomes citados que ainda são cardeais eleitores estão Daniel DiNardo (até 2029), Arcebispo Emérito de Galveston-Houston, e Peter Turkson (até 2028), de Gana. O africano, em especial, foi muito cotado como possível papa após a renúncia de Bento 16.

O papa Francisco aceitou a renúncia de DiNardo em janeiro; ele teria se aposentado por idade. Em 2019, ele foi acusado de ser omisso em relação a um caso de abuso que teria sido cometido pelo monsenhor Frank Rossi, seu antigo “número 2” na hierarquia da Igreja. Rossi teria se aproveitado de seu papel de confessor de uma mulher casada para manipulá-la emocionalmente e iniciar uma relação sexual com ela e pedir doações, de acordo com a agência Associated Press.

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Peter Kodwo Appiah Turkson.

Já Turkson afirmou que abusos sexuais não são tão comuns em igrejas na África porque a cultura condena a homossexualidade. Sua declaração à Christiane Amanpour, da rede americana CNN, em 2013, gerou revolta em vítimas, grupos de defesa de direitos LGBT e desagradou até pares dentro da Igreja Católica, de acordo com os jornais da época.

Outros dez nomes foram implicados em escândalos de abusos sexuais que teriam sido acobertados. São eles os cardeais Roger Mahony, Sean O’Malley e Donald Wuerl, dos EUA; Leonardo Sandri, da Argentina; Marc Ouellet, do Canadá; Dominik Duka, da República Tcheca; Oscar Maradiaga, de Honduras; Tarcisio Bertone e Angelo Scola, da Itália; e Norberto Carrera, do México.

Todos eles já não são eleitores. Mahony foi afastado em 2013, após documentos revelarem que pagou pelo silêncio de vítimas; O’Malley foi criticado por divulgar os nomes de 159 clérigos acusados de abuso, mas não revelar outros 91. Sandri teria oferecido apoio a um abusador, o fundador dos Legionários de Cristo Marcial Maciel, segundo a SNAP. Ouellet teria negado a encontrar-se com vítimas e, em 2023, também foi acusado de abuso em um caso ainda em andamento. Duka alegou que apenas 10% das denúncias contra padres se provam verdadeiras. Anos depois, ele mesmo entrou na Justiça contra abusadores de dentro da Igreja. Maradiaga se recusou a colaborar com a Justiça em acusações, mas depois foi determinado que um bispo sob seu comando abusava seminaristas. Bertone culpou os abusos pela homossexualidade no clero e criticou o clamor por confessores denunciarem seus pares. Scola e Carrera minimizaram as acusações, com o mexicano dizendo que não ocorria abuso no México.

Na sua autobiografia “Esperança”, o Papa Francisco revelou que recebeu uma “grande caixa branca” do seu antecessor, Bento XVI.

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Imagem insólita entre Bento XV e Francisco.

A caixa foi-lhe entregue pelo Papa abdicante em Castel Gandolfo, a residência papal de verão a sul de Roma. Só os dois sabiam que documentos continha. O Papa Francisco escreveu na sua autobiografia que recebeu de Bento XVI uma “grande caixa branca” com documentos relativos a “situações difíceis e dolorosas”. Francisco terá recebido esses documentos pouco depois da sua eleição para o cargo papal.

“Ele deu-me uma grande caixa branca”, escreveu Francisco na sua autobiografia. “Está tudo aqui, documentos relativos às situações mais difíceis e dolorosas. Casos de abusos, de corrupção, de interesses obscuros, de actos ilícitos.”

Em “Esperança”, o Papa Francisco escreveu que se sentia “chamado a assumir a responsabilidade por todo o mal cometido por alguns sacerdotes”. Bento XVI deveria dizer-lhe: “Cheguei até aqui, tomei estas medidas, afastei estas pessoas. Agora é a tua vez”.

No livro, o Papa Francisco sublinhou que tinha continuado o caminho do seu antecessor. O último ano de Bento XVI no cargo foi difícil para ele, sobretudo devido à deterioração da sua saúde, que foi a razão da sua abdicação em 2013. O problema da pedofilia na Igreja foi um dos principais desafios do seu pontificado. Bento XVI foi repetidamente acusado de negligência na luta contra a pedofilia na Igreja. Ao mesmo tempo, o Papa Francisco, numa entrevista ao jornal diário La Nacion em 2023, abordou as acusações de encobrimento de casos de pedofilia na Igreja, admitindo que Bento XVI “foi o primeiro a enfrentar este problema”. O terramoto foi desencadeado por um relatório de 2022 sobre pedofilia que incriminava Bento XVI pelas suas ações enquanto era arcebispo de Munique. De acordo com o relatório, Joseph Ratzinger terá negligenciado em quatro ocasiões o caso de clérigos acusados de atos de pedofilia na diocese de Munique. O relatório sobre a pedofilia em Munique, no qual foram identificadas quase quinhentas vítimas ao longo de um período de quase setenta e cinco anos, foi elaborado por um escritório de advogados alemão.

“Em todos os meus encontros com vítimas de abusos sexuais por parte de padres, olhei nos olhos as consequências de uma culpa muito grande e aprendi a compreender que nós próprios somos arrastados para esta culpa muito grande quando a ignoramos” – escreveu Bento XVI numa carta em que se referia ao relatório publicado.

“Carrego uma grande responsabilidade na Igreja Católica. A minha dor é ainda maior por causa dos abusos e erros que ocorreram durante o meu ministério em lugares particulares” – escreveu Bento XVI.

“Estou particularmente grato pela confiança, apoio e orações que o Papa Francisco me expressou pessoalmente”, acrescentou Bento numa declaração na altura.

“Em breve enfrentarei o juiz final da minha vida. Embora, olhando para trás, para a minha longa vida, eu possa ter muitas razões para medo e apreensão, estou alegre em espírito porque acredito firmemente que o Senhor não é apenas um juiz justo, mas também um amigo e um irmão”, escreveu Bento XVI.

Para além da carta de Bento XVI, o Vaticano publicou uma análise separada de quatro advogados que questionavam as alegações específicas contra o Papa reformado. Os peritos afirmaram que os investigadores tinham descaraterizado as ações e ignorado os factos. Alguns comentadores e figuras da Igreja, incluindo o padre Tadeusz Isakowicz-Zaleski, salientaram que Bento XVI já tinha tomado medidas para combater a pedofilia nos últimos anos do pontificado de João Paulo II e mais tarde como Papa. Em 2010, a 15 de julho, a Santa Sé alterou as normas para lidar com os crimes mais graves. Isto diz respeito principalmente ao abuso sexual de menores por parte do clero, bem como aos crimes contra a fé e o sacramento da Eucaristia, a penitência e as ordens sagradas. As alterações constam de uma Carta publicada pela Congregação aos Bispos da Igreja Católica e a outros Ordinários e hierarcas interessados, relativa às modificações introduzidas na Carta Apostólica Motu Proprio ‘Sacramentorum sanctitatis tutela’, de 2001.

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William Joseph Levada.

Como o prefeito da Congregação, o Cardeal William Levada, salientou na sua nota introdutória, as modificações dizem respeito apenas a certas áreas, a fim de tornar mais útil o texto do documento de há nove anos. Foram aprovadas por Bento XVI a 21 de maio de 2010. As novas normas sobre os abusos sexuais incluem disposições para acelerar os procedimentos, a fim de atuar mais eficazmente nas situações mais urgentes e graves. Permitem que leigos trabalhem no Tribunal; alargam o período de prescrição destes casos em processos canónicos de 10 para 20 anos após a vítima ter atingido a idade de 18 anos; e tratam os crimes de abuso contra pessoas com deficiência mental da mesma forma que os crimes contra menores. É também introduzido o crime de pornografia pedófila. Num discurso aos bispos da Irlanda, em 28 de outubro de 2006, o Papa Bento XVI afirmou, entre outras coisas, que as feridas infligidas pelos padres que abusam sexualmente de menores são profundas. A tarefa urgente”, acrescentou, “é reconstruir a confiança onde ela foi afetada”. O discurso foi visto como uma dura crítica aos abusos cometidos por padres e aos actos de pedofilia. Analistas italianos do Vaticano observam que, enquanto Papa, entre outras coisas, forçou a retirada da atividade pública e a penitência do fundador da congregação dos Legionários de Cristo, o padre Marcial Maciel Degollado, do México, acusado de abuso sexual de menores durante quase sessenta anos. O Papa Francisco encontrou-se com pessoas que foram vítimas de pedofilia por parte de padres. Ainda em 2024, reuniu-se com um grupo de vítimas em Bruxelas.

De acordo com um comunicado do Vaticano, o Papa “expressou gratidão pela sua coragem e também vergonha pelo que sofreram enquanto crianças às mãos dos padres a quem foram confiadas”.

Num discurso no Castelo de Laeken, o Papa disse: “Este é um flagelo que a Igreja está a combater com determinação e firmeza, acompanhando e ouvindo aqueles que foram feridos, e implementando um amplo programa de prevenção em todo o mundo”.

Desde que Francisco se tornou Papa, também tem lutado ativamente contra a corrupção, aprovando legislação em 2021 para processar bispos e cardeais suspeitos de crimes. O Papa Bento XVI e o Papa Francisco também tiveram de enfrentar escândalos de corrupção envolvendo o Banco do Vaticano. Pouco depois da sua eleição, Francisco considerou a possibilidade de encerrar o banco, formalmente conhecido como Instituto para as Obras Religiosas (IOR), mas decidiu continuar as reformas iniciadas pelo seu antecessor. Começou a reformar o Banco do Vaticano para o pôr ao nível das novas normas, após anos de escândalos e alegações de branqueamento de capitais. Em anos anteriores, o banco foi apanhado em casos de corrupção, evasão fiscal, desvio de fundos, branqueamento de capitais e fraude imobiliária, alguns dos quais envolvendo altos funcionários e prelados, o que prejudicou as credenciais éticas do Vaticano. Já em 1990, João Paulo II apelava à realização de auditorias internas. Durante décadas, antes das reformas, o Banco do Vaticano esteve envolvido em numerosos escândalos financeiros, uma vez que pessoas não autorizadas abriram contas e utilizaram-nas para fins ilegais, com a cumplicidade de indivíduos corruptos. O economista e banqueiro italiano Ettore Gotti Tedeschi foi presidente do Banco do Vaticano durante o período de turbulência entre 2009 e 2012. As finanças opacas da Santa Sé foram objeto de um escrutínio sem precedentes na sequência de uma investigação sobre branqueamento de capitais.

Tedeschi foi demitido por alegada “negligência do dever”. – No entanto, o presidente da Santa Sé afirmou que tinha tentado introduzir transparência.

“Os factos tiveram um desfecho muito diferente, mas tudo isto é um assunto que foi remetido para o Ministério Público. Prefiro não falar sobre isso”. – disse Tedeschi à Euronews em 2016.

Até à data, não se sabe exatamente o que está contido na “caixa branca” entregue pelo Papa Bento XVI ao Papa Francisco, nem se será entregue ao próximo Papa.

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24 de Abril de 2025 – jOSé caLEIro para MMH

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